sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

GRUPO ESCOLAR GABRIELA MISTRAL




Aldo Votto

Andava o ano de 1972. Quando na idade eles não passam de onze, os anos não correm, passeiam olhando os arredores.

A escola tinha um nome muito belo: Gabriela Mistral. Era uma homenagem à poeta e educadora chilena que recebera o prêmio Nobel de literatura em 1945. O prédio, feito em madeira, com técnicas de pré-fabricação, tinha centenas de iguais espalhados pela capital e interior do estado mais meridional do “país de dimensões continentais” do qual, na quinta série, já se aprendia a geografia encravada na disciplina que então se designava “estudos sociais”. Aliás, o “quinto ano”, justamente naquele ano, se fizera feminino e acabara o exame de admissão, mini-vestibular pelo qual meus irmãos mais velhos tiveram que passar para sair do primário e ingressar no ginásio.
- Que bom que não pulei do quarto ano para o primeiro do ginásio!

Assim pensava, depois de entender o que era a “reforma do ensino” que transformara os primeiros oito anos de freqüência escolar em “ensino fundamental”. Até então, dependendo das notas, era possível prestar o exame de admissão ao final do quarto ano de estudos, dispensando-se a revisão de conteúdos que era a característica do quinto.
Pois na tal escolinha de madeira vivi algumas inesquecíveis histórias de guri.

Anos mais tarde aprendi que aquela arquitetura e a intenção de espalhar escolas por todo o lado lá no sul era a primeira e mais modesta edição dos prédios modulados em concreto que se esparramaram pelo Rio de Janeiro depois do fim da ditadura.

A quinta série era a primeira vez em que se tinha mais de um professor na mesma turma. Havia pelo menos uns quatro, que dividiam o conteúdo em disciplinas. Embora não esteja muito seguro, penso que eram algo como: Matemática, Língua Portuguesa, Ciências, Estudos Sociais, Artes e Religião.

E lá estavam os filhos da classe média baixa de um bairro de trabalhadores. Era gente pobre, mas que tinha uma renda suficiente para alimentar, vestir e educar suas crianças sem depender de transporte escolar, automóvel ou pagar pela escola. As professoras, e os poucos professores, eram vistos como figuras a se respeitar, já se ultrapassara os tempos em que havia castigos físicos aplicados aos alunos e se estava muito longe dos tempos em que as crianças começaram a deixar de ver os professores como figuras de referência da sociedade que estavam sendo orientadas a se engajar.

Conviviam gentes de todo o tipo: cores, religiões e posses eram diferenças adjetivas. Na hora da escola e da brincadeira aquela heterogeneidade era mais um ingrediente de vivência rica em descobertas e curiosidade. Ficava encantado, por exemplo, com a quantidade de coisas penduradas na parede da casa de um dos meus amigos que era negro. Na casa dele, como na minha e na de outros colegas, as crianças eram tratadas como filhos da comunidade. Não faltavam jamais cuidado e alimentação – que se chamava merenda - para toda a gurizada que estivesse por ali; solidariedade inesquecível!

Já mais para o final do ano, aconteceu um episódio que marcaria para sempre minha memória afetiva como uma abertura de um novo caminho para ver o mundo.
As turmas de quinta série, por terem vários professores, tinham também uma professora regente de classe. A da nossa turma se chamava Lia. A imagem vaga que carrego é de uma mulher esguia, elegante, cabelos claros sempre arrumados; do comportamento, lembro que era exigente e dedicada.
Certo dia, ela me chamou ao final de uma aula e me entregou, por empréstimo, um livro. Identificara em mim, entendo hoje, um potencial leitor que provavelmente teria prazer em ver o mundo por meio de letras, palavras e sentenças.

O livro era uma novela. O número de páginas, isto é, a “grossura” do volume não amedrontariam o pequeno curioso. E, embora já convivesse com a presença de livros em casa, pois a família, que não tivera oportunidade de muita instrução lá na área rural de onde migrara, ainda assim ou talvez por isso os julgava um valor, considero aquele, até hoje, como o primeiro livro da minha vida.

Este ano, encontrei um exemplar em ótimo estado em um sebo. Comprei e presenteei-o à minha filha, de onze anos. Ela, que já tem a leitura com hábito há algum tempo, não gostou do final da história. Quando, ao conversarmos sobre o enredo, me veio à mente o nome “Salvador”, ela ajudou-me a lembrar o nome do personagem principal: Santiago.
A novela que a professora Lia me apresentou no ano de 1972 foi “O Velho e o Mar”, publicado pela primeira vez exatos vinte anos antes por Ernest Hemingway.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O RESUMO DA ÓPERA



Joana Eleutério

Recontando a história...

Meus pais eram primos de primeiro grau ou primos-irmãos, melhor dizendo. Isto, no entanto, é só para explicar a origem da loucura...

Dezesseis irmãos – onze mulheres e cinco homens. Muito dinâmica, minha mãe cuidava da casa, costurava e, às vezes, ainda dava aulas para as crianças da região. Era também uma espécie de médica de toda vizinhança. Tinha uma caixinha de madeira com medicamentos homeopáticos, que vinham do Rio de Janeiro e um grosso livro da Almeida Prado para se orientar. Multiplicadora do tempo, ainda nos ensinava a moldar, com argila, diversos objetos para brincar e, quase todas as noites, nos contava histórias e estórias ao pé do fogão de lenha. Eventualmente pelas manhãs, ela ainda nos levava para nadar no açude e tomar o sol das manhãs. Tivemos, portanto, uma infância bonita, com brincadeiras de roda, passeios a cavalo nos fins de semana para visitar os tios e primos que moravam nas redondezas.

O meu Curso Primário foi iniciado em uma escola rural. Aos seis anos, aluna da D. Lourdes Eleutério Azevedo, também minha tia, fui com meus irmãos, para uma escola que funcionava em uma sala cedida por um tio (meu querido tio Joãozinho). Usávamos enormes carteiras, em que cabiam cinco, seis crianças. Em uma só classe, se colocava aproximadamente vinte alunos de diferentes idades (as famosas turmas agrupadas, que existem ainda hoje na zona rural). Fazíamos muitos exercícios para treino motor, mas nem comecei a ser alfabetizada. A prefeitura da cidade de Araújos, em Minas Gerais, pagava a professora, fornecia giz e um quadro negro, “que não era verde”.

Aos sete anos meus pais alugaram uma casinha em Bom Despacho, a 160 km de Belo Horizonte, para que eu e meus irmãos pudéssemos estudar na cidade. Tiza, uma das irmãs, tinha apenas 16 anos e cuidava da turma toda. Os mais novos ficaram na roça com meus pais, e os mais velhos espalhados por colégios de freiras, onde tinham bolsa de estudos, ou em casas de tios, meio como domésticas e babás dos priminhos pequenos.

Meu primeiro dia na Escola Estadual Coronel Praxedes, apenas alguns dias antes do início das aulas, foi para fazer um teste para classificar os alunos conforme a inteligência. Fiquei totalmente impressionada com o tamanho do prédio da escola. Os alunos eram divididos em classe homogêneas, critério comum na época. Binet deve ficar revoltado com o uso completamente desvirtuado de seus testes. Num dos exercícios – que eu adorei e nunca me esqueci – eu tinha que ajudar o coelhinho a encontrar a horta cheia de alfaces. Com um bom desempenho, pude ficar na chamada primeira classe e a professora, Dona Célia Resende, era a melhor alfabetizadora da cidade. O Livro – A Cartilha de Lili era a coisa mais linda que eu já tinha visto. Foi usado em Minas Gerais desde a década de trinta até a década de sessenta. Recentemente, pude entender o seu papel doutrinador e machista e avaliar os seus efeitos em minha vida.

No segundo ano, a Professora era Dona Helena Batista – era uma boa professora. Muito séria, faltava-lhe, provavelmente, a amorosidade da antiga professora. O que me lembro claramente foi de sua estratégia para decorarmos a tabuada. A professora, nos minutos finais da aula, organizava uma competição em dois grupos. Dois alunos de cada vez iam ao quadro. Tive problemas porque da tabuada de seis acima, não quis mais decorar tudo (detesto decorar qualquer coisa!), então eu tentava usar outras estratégias. Por exemplo: eu invertia os números. Em 6x5, eu lembrava de 5x6, e depois dava o resultado. Perdi velocidade daí pra frente, quem decorava dava o resultado mais rapidamente.

Na terceira série, uma outra Dona Helena, agora Lopes Cançado. Era muito boa professora, talvez a melhor da cidade para esta série. Neste ano, nossa escola estava sendo reformada e tivemos aulas em local improvisado, cedido pela prefeitura e que ficava perto da cadeia. Isto nos dava um medo enorme dos “bandidos”, que muitas vezes, ficavam do lado de fora tomando sol. Nossa turma seguia junto desde a primeira série, mas nesse ano chegaram alguns alunos novos, acho que repetentes, não me lembro ao certo. O assunto que estudei e que mais me encantou foi a respeito das regiões do Brasil porque me fazia “viajar”, sem nunca ter ido mais longe do que Divinópolis, uma cidade vizinha e mais rica do que a nossa.

Na quarta série, como nossa turma era considerada muito brilhante, a escola quis investir mais no grupo, permitindo que a professora, de que tanto gostávamos seguisse conosco. Ficamos na mesma sala e com a mesma professora. Neste ano, minha avó – D. Maria Azevedo, como era conhecida - morreu de câncer. Éramos muitos netos dela na escola, fomos avisados e fomos todos para sua casa. Creio que isto aconteceu no mês de maio. No meio do ano, alguém fez um livro da História e da Geografia do município de Bom Despacho, nossa cidade. Como este era um dos conteúdos que devíamos estudar, todos os alunos da 4ª série tiveram de comprá-lo. Minha irmã, mais velha do que eu dois anos, estudava em outra sala. Minha mãe (meu pai não “apitava” quase nada) não tinha dinheiro e nos mudou de escola por causa disto. Fomos para a recém inaugurada e também estadual Escola Chiquinha Soares – a quarta série era um grupo diversificado de alunos transferidos das outras escolas. Alunos novatos como eu e alunos repetentes, já entrando na adolescência, ou até mesmo já adolescentes.

Na antiga escola, ainda no Coronel Praxedes, sempre às quartas-feiras, tínhamos um evento importante: as aulas de música com o Professor Magela, que vinha cantar conosco os hinos pátrios e, vez por outra, ensaiar alguma música sacra para alguma celebração, como o Dia das Mães. Na nova escola, sequer tínhamos aulas de música.

Sentia-me triste e saudosa, apesar da professora, Margarida Cardoso Eleutério, ser bem mais jovem e minha prima de 1º grau. Minha irmã e eu ficamos na mesma sala pela primeira vez. A sala era muito estreita e apertada, quase um corredor. E eu me lembrando sala do Coronel Praxedes, muito ampla e ventilada e no primeiro andar do prédio. Meio caçulinha da turma, eu era bastante paparicada, mas minha tristeza por ter deixado minha professora e meus colegas para trás nunca foi embora. A lembrança que tenho bastante nítida, deste final de curso primário, é que minha professora precisou faltar durante uma semana e foi substituída por Dona Luzia, a professora eventual. Mais velha e muito séria, nunca a vimos sorrir. Um dia, ela deu alguns problemas de matemática para resolvermos individualmente. Não podíamos conversar com os colegas. Como terminei rapidamente e comecei a fazer o que mais gostava em situações como esta – uma atividade, que se tornou quase profissional e fonte de renda pra família em minha adolescência – desenhar. Quando a professora passou por mim, começou com a maior bronca e foi pra frente falando alto pra todo mundo ouvir. Não me lembro direito, mas acho que até mostrou os desenhos para os meus colegas. Ela foi andando lá pra frente com o meu caderno na mão. Só depois que ela falou bastante descobriu que eu tinha feito tudo e certo. Calou-se e foi olhar outros cadernos e devolveu o meu.

Durante todo curso primário eu fui uma aluna bastante tímida e nunca ou quase nunca brincava no recreio. Gostava de bater papo com os colegas que também não gostavam de brincar, correr ou jogar. Não fui uma aluna muito participativa durante as aulas, pelo mesmo motivo. Mesmo quando sabia a resposta para dar a professora, eu não o fazia, a não ser que ela perguntasse diretamente a mim.

Dos 12 aos 14 anos, estudei em um colégio interno da Congregação das Filhas de Nossa Senhora do Sagrado Coração, em Divinópolis, Minas Gerais. Neste período, as freiras queriam me levar para o convento e foram muito atenciosas e extremamente carinhosas comigo. Inclusive, foi a Madre Paulina, a superiora da casa, quem me comprou o primeiro soutien. No entanto, eu já tinha meu namoradinho e elas nem desconfiavam. Foi um período curto, mas muito importante para mim. Nesta fase, comecei a superar a timidez, brincava e jogava no time de queimada. No internato, líamos muitos livros sobre a vida de santos. Santa Maria Goretti foi a mais explorada pelas freiras, que queriam dar aulas de Educação Sexual, mas não sabiam como abordar o assunto. Partiram desta triste figura para nos alertar a respeito dos perigos e sobre como devíamos nos cuidar, nos vestir para não provocar os homens, “que só querem aproveitar das mulheres”.

O que mais me encantou, neste período – eu não conhecia ainda – foram os gibis do Pato Donald, Tio Patinhas, Mickey, Pateta, Metralhas e Zé Carioca e foi o que mais li nesta época. A Turma da Mônica ainda não existia. Duas colegas – Víviam e Líliam – duas irmãzinhas que eram de Belo Horizonte e tinham um monte destas revistinhas sempre as emprestavam para mim. Boas coleguinhas, como gostaria de reencontrá-las!

Um outro fato muito marcante, neste período, foi o Golpe Militar de 1964, que eclodiu no final do recesso da Semana Santa, dando início a uma fase negra, muito conhecida de nossa história recente e a uma das ditaduras que caracterizaram esse período vergonhoso para toda a América Latina. Meus pais, por serem mal informados ou ingênuos mandaram-nos – a mim e a minha irmã – para o colégio e as freiras nos botaram de volta no primeiro ônibus. Não se sabia o que poderia acontecer e o estado de sítio havia sido decretado.
Os internatos já não estavam sendo bem vistos e estavam sendo fechados, como ocorreu em nossa escola. Voltei para minha terra e fui estudar no Colégio Militar. O que marcou o período foi meu primeiro contato com a Língua Inglesa e a lembrança de algum episódio importante no conflito entre Israel e vizinhanças, mais ou menos na época da Guerra dos Seis Dias. Como queríamos compreender melhor o que era aquela guerra, pedimos algumas explicações ao nosso professor de OSPB – Organização Social e Política Brasileira (a disciplina incluída no currículo pelos militares como instrumento de doutrinação, mas felizmente alguns professores conseguiam fazer um trabalho bem interessante e muito filosófico). Padre Vicente Rodrigues, nosso professor, mostrou-nos no mapa onde ficavam os países envolvidos e o porquê dos conflitos, aproveitando a oportunidade para falar também da Guerra do Vietnã (1965-1975), mostrando também no mapa aquele pequeno país. Engraçado, eu sequer me lembro quem era o nosso professor de história naquela época.

Já quase no final do curso ginasial – nomenclatura da época – fiquei algum um tempo em Belo Horizonte, tentando trabalhar e estudar. Fui aluna do Colégio Municipal do Bairro Salgado Filho. No entanto, voltei para Bom Despacho porque minha mãe ficava preocupada e sempre pedia que eu voltasse. Conclui a quarta série do ginásio no Colégio Estadual Industrial de Bom Despacho, que era dirigido pelo escritor e jornalista – o Professor Jacinto Guerra. No ano seguinte, fui para o Colégio Estadual Miguel Gontijo, o mais tradicional da cidade, onde fiz o 1º ano do Ensino Médio – Curso Normal ou Magistério.

Eu estudava na turma “mais adiantada” e a minha irmã na outra – segundo os critérios adotados naquela época. Gardner iria ficar arrepiado se lesse isto aqui. Os fatos mais marcantes: Padre Vicente, novamente dando aulas de OSPB. Agora ele dava aulas de pura filosofia e espiritualidade, nos apresentando Tomaz de Aquino, Santo Agostinho, dentre outros. Rosa Gontijo Azevedo, a professora de Didática, era também uma prima e excelente professora, que adorava alfabetizar e treinar alfabetizadoras. Foi ela que nos falou pela primeira vez de Florestan Fernandes e outras brilhantes cabeças da educação brasileira.

Porém, acabei retornando para Belo Horizonte porque eu precisava trabalhar para, pelo menos me manter. Fui para o Instituto de Educação de Minas Gerais, onde concluí esta fase – o Curso do Magistério. Trabalhava durante o dia, como caixa do mais antigo supermercado de Beagá e que hoje nem existe mais. E, portanto, estudava à noite. Nesse período, no inicio dos anos 70, a derrocada das escolas públicas já havia começado em conseqüência das políticas educacionais adotadas pelos militares e nem o curso nem os professores corresponderam às minhas expectativas. Mas, tenho boas lembranças de D. Terezinha Vasques, de Didática, e o professor Luís, de música, que era muito exigente, mas excelente professor. Concluí o magistério em 1972 – quando fiquei noiva.

Só voltei a estudar bem mais tarde. Já casada, com uma filha de quatro anos e esperando o segundo filho. Participei da seleção para a primeira turma do Curso de Estudos Adicionais para complementação do Magistério, com especialização em Educação Artística. Para minha surpresa, passei em primeiro lugar. Até que o curso começasse, eu já estava no sétimo mês de gravidez. Teve o recesso de final de ano, dei a luz no dia quatorze de dezembro e acabei não retornando no início do novo ano. Dois anos, em 1981, fiz a prova de seleção novamente e retornei em outra turma. Desta vez, concluí o curso, do qual gostei muito. D. Letícia, professora de Música e a professora de artes plásticas são as que meu coração escolheu para prestar uma homenagem nestas minhas lembranças.

Ano de 2007 - já avó e a minha vida de estudante ainda não terminou. Devo concluir Curso de Letras na UnB – Universidade de Brasília no meio do próximo ano. As lembranças já são muitas, cheias de peripécias e mudanças. E, claro, serão narradas no momento oportuno. Afinal, recontar a nossa história com amor é sempre iluminá-la.

MEUS SETE ANOS: O PRIMEIRO ANO NA ESCOLA




Joana Eleutério

Pensar a respeito do assunto e tentar lembrar um episódio marcante, pitoresco, histórico ou divertido tornou-se um exercício interessante.

Na simplicidade de uma enorme família do interior de Minas, vivendo na zona rural, nossa vida tinha poucas novidades, não tinha grandes alegrias e nem muitas tristezas. Com pais extremamente comportados e enquadrados, nós éramos crianças que “entravam mudas e saiam caladas” em quase todos os ambientes. Tínhamos poucos direitos e muitos deveres.

Assim tão educadinhos, e sabendo “de cor e salteado” o lema dos pais e dos educadores daquela época,– final da década de 50 – “criança não tem querer”, meus pais nunca receberam reclamações de professores ou de escolas e nem de vizinhos.

Décima filha, com seis irmãos mais novos e nove mais velhos, eu escapei pela tangente. Criei um mundo de sonhos e fantasias que me davam direito a ter amigos secretos e tão pequenos que cabiam na palma de minha mão. Eles viviam debaixo da terra e nos cupins. Construíam verdadeiras cidades subterrâneas. Eu podia brincar com seus minúsculos carrinhos e eles me contavam tudo sobre a sua vida debaixo da terra. Pena que eu não podia entrar lá, só eles saiam pra brincar comigo. E, a qualquer barulho se escondiam novamente... Só eu podia vê-los.

Menina muito sonhadora, eu brincava, sozinha, horas a fio. Só quando meus irmãos e primos iam nadar no açude, eu me juntava a eles e me esbaldava. Este temperamento até deixava os adultos preocupados, principalmente minha mãe. Até começar a estudar na cidade, em Bom Despacho, eu era considerada pouco inteligente e muito desatenta. “Esta menina vai ter dificuldades para aprender, diziam!” Minha cidade fica a 160 kim de Beagá, pela BR 262 sentido Uberaba.

Na escola da cidade, o que mais me surpreendeu foi o seu tamanho: muitas salas, dois andares, pátios e uma quadra. Tinha ainda uma enorme cantina, onde sempre eram servidos mingaus e outras merendas gostosas. O Grupo Escolar Coronel Praxedes, o mais antigo e tradicional da cidade ocupava um quarteirão quase inteiro, pertinho da Praça da Matriz e também da Praça da Estação. Além dele, naquele ano de 1959, só havia outro – o Grupo Escolar Flávio Cançado, que funcionava no antigo seminário.
Meus coleguinhas eram crianças bonitas, cheirosas, bem vestidas e muito bem penteadas. Eram muito clarinhas, não tomavam tanto sol como a gente lá da roça. E falavam de um jeito tão diferente também. Eu achava tão bonito e ficava caladinha, só observando e ouvindo. A nossa professora era excelente e eu logo aprendi a escrever e a fazer contas. Minhas redações e desenhos faziam sucesso. A professora sempre escolhia as melhores redações e lia alto para toda a turma – eu ficava feliz escutando o que eu tinha inventado na voz de D. Célia Resende. Eu me sentia uma verdadeira escritora. Tão feliz como quando declamava a Canção dos Tamanquinhos...

O que eu mais gostava era quando a professora contava estórias e depois os alunos faziam teatrinho. Eu sempre ficava na platéia, quase sem respirar, de tão bonito que eu achava. A estória da D. baratinha se tornou inesquecível. A Bete, aluna nota dez em tudo, não tinha vergonha de nada e quase sempre fazia o papel principal. Ela fez muito bem o personagem da Baratinha. Hoje ela é médica, mas continua sendo a “Bete Barata”, apelido que ganhou naquele dia, até mesmo como uma homenagem por sua excelente performance.

Eu a admirava muito. Mas, uma vez, não me lembro o motivo, nos estranhamos na saída da escola. Com toda turma e os alunos de outras turmas que também estavam saindo e fazendo uma torcida danada, eu fiquei valente. Segurei-a no canto do muro e fui apertando, apertando e sendo ovacionada pela molecada, até pelos meninos da quarta série. Hoje eu penso: Eh, Bete Barata, a nossa salvação foi a vice-diretora. Se ela não aparece!!... Ela salvou você e me tirou daquele papel ridículo de valentona, que eu estava representando.

No dia seguinte, estávamos conversando de novo e nem nos lembrávamos da traquinagem da véspera. E eu me pergunto até hoje de onde surgiu aquela briguinha tão boba!

RETRATO D'UMA ESCOLA SEM RETRATO



 André Pêssego

Por comodidade de minha mãe fui para a escola aos 6 anos. Aprendi a ler (sem soletrar), também antes dos 7. Escola "aberta" na minha casa. A casa de farinha enorme, foi partida no meio para abrigar a escola, 1954/55.

Gilbués fica no extremo sul do Piauí, no centro da trempe de ligação entre os estados do Maranhão, Bahia e o hoje Tocantins. E pode-se dizer dele mesmo, já que dista 980 km de Terezina. Região historicamente agro-pastoril, mais pastoril que agrícola.Um dos sinais acentuados de matriarcado do Brasil - característica necessária da zona agro-pastoril, de criação extensiva.

Mestre Benício, garimpeiro negro, letrado - dos liames das doutrinas religiosas às do direito, bamba das culturas populares, naquele ano propos à minha mãe, a "abertura" da escola.

Minha casa ficava numa boa eqüidistância das casas dos demais parentes e próximo da currutela dos garimpeiros, atendendo, com vantagem aos dois núcleos. Minha mãe não titubeou. Ficou radiante! E já aviou as mudanças.

Não tinha formalidade alguma para a matrícula. Nem documento nem retrato. De pai e mãe analfabetos, como de resto os familiaes, salvo um tio que escrevia e lia as cartas, fui para a escola:

- "Tão miudinho!" Diziam as tias, com pena, mas sem reprovação.
 - "Que mal tem!?", justificava-se minha mãe, sempre com a razão.
 Na escola de Mestre Benício os pais exigiram o instrumento pedagógico PALMATÓRIA, contrariando ao "africano".

Me desarnei rápido, para satisfação de meu pai e martírio próprio: tinha de ler sempre para os visitantes ou parentes ora as cartilhas; ora os livretos de cordel.

Afilhado de Dona Maria Corado, e graças às considerações entre os compadres, Dona Antonio Corado, (a mãe), viúva do Cel. Fausto Lustosa, ofereceu residência e estadia para eu ir estudar em Gilbués, escola oficial, convênio igreja/estado
Morar com aquela familia, nobre, de costumes e ritos totalmente diferentes da minha vivência quase de indígena, foi terrível. De tão assustador, hoje não me recordo dos primeiros dias. Mas foram torturosos: como se estivesse engolindo a própria língua. De menos angustiante contava somente com o momento do sono.

Como estava esquartejada a sociedade em Gilbués estava mais ou menos a vida dos meninos das escolas.

A) - aqueles mandados para outras cidades - escolas famosas: ou de padres ou dos protestantes, via de regra americanas. Retornavam a Gilbués ocasionalmente, férias ou festividades - "se tornavam" importantes, poderosos, bonitos.

B) - dos que estudavam em Gilbués

B.1) - aqueles que os pais moravam na cidade. Super protegidos, importantes, uns até bonitos, também; B.2 - os que moravam nas roças, - os "forasteiros" - esprimidos, desprotegidos, sentiam-se sem importância alguma. Eu estava neste último grupo.

Eu, se para os olhos dos adultos e das professoras tinha um mérito - já entrei alfabetizado. Já sabia tabuada "na ponta da língua"-; para com os demais meninos: débito enorme, impagável.

Era de tal ordem a rixa que eu evitava de dar resposta certa, do que sabia. Não me convinha - ficava mal visto, não ia ter com quem vadiar. O recurso mais usual era fingir que não sabia. mesmo correndo o risco de pegar algum castigo, os usuais (copiar tantas vezes, não sair pro recreio, etc).

Um ano depois, acho que pelo crédito das leituras, fui para o colégio dos padres - Colégio Divina Pastora - "bolsista" não sei de quem.
 - Minha mãe, impassível, "tá lá pra estudar mesmo", dizia - não se movia por qualquer coisa - hoje a vejo assim.

 - Meu pai saiu contando para todos os parentes e conhecidos. Felicidade enorme. Acho que foi a maior satisfação que lhe dei, (se não a única), - que sinto que lhe dei.

Anos depois, acho que 1958, as moças, professoras (filhas de Gilbués) foram substituídas por moças de Terezina, Floriano, Salvador, formadas de anel no dedo e diploma na parede, emoldurado. Exigência da Ordem Católica, de origem espanhola, não sei qual. Nova divisão social.

 A) - As moças da cidade não faziam amizade com as forasteiras, os rapazes não as namoravam por "medo de rixa entre as famílias", já que aquele "não pode", soou-lhes como uma desmoralização;

 B) - as professoras (novas) foram para o rol dos "desimportantes", dos forasteiros.

O "alto", na frente da igreja, nas noites de calor, e lua clara, (dificil não ter calor), era o lugar onde reuniam moças e rapazes. Lá estavam elas - isoladas. Quase sempre nos chamavam a todos, via de regra só os meninos "forasteiros" se chegavam.

Enquanto na casa de meus pais o tormento eram as leituras dos livretos de cordel, na casa de Dona Antonia Corado o "suplício" era a sala de leitura - todas as noites, rigorosamene todas. Depois do jantar, e antes de dormir. Dona Maria Corado recostada numa preguiçosa, vigilante, lendo as revistas "O Cruzeiro" que lá chegava com meses de atraso

Um dia achei, li a biografia do Marechal Lott, minha madrinha, sempre tão distante, passou a mão na minha cabeça, fiquei feliz: Ela gostara, aprovara. Ficamos íntimos daí por diante, até sua morte, em 1983, nos sentimos assim, tenho certeza. (4)

Aprendi e me acostumei a encontrar nas professoras o amparo, a amizade, a companhia, a proximidade, a intimidade. Assim Professora para mim, no meu imaginário não é adjetivo, não é pronome. Não, Professora para mim é nome próprio.

Fui para o exame de admissão ao ginásio. Já tinha deixado de ajudar nas missas, nos casamentos.

- "A túnica do Rei do Congo feita de diamantes", contava Vó Ursa com detalhes, como furavam o composto mais duro da terra.

 - "Reino do Congo não existiu, miragem", re-ensinavam os padres, nas aulas de História ou nas pregações das Santas Missões. Me insurgia, sem conhecimento, só por amor a Vó Ursa, por gostar de Mestre Benício. Fui "ficando antipático", sabia eu mesmo.

Uma soma de tres fatores me impediram de entrar no ginásio: - falta de recursos financeiros, éramos cinco irmãos; - perda da simpatia para com o Diretor, o baiano Pe. Paulo; -a doença de Dona Antonia Corado. Não convinha continuar; não podia bancar o ginásio. Deixei Gilbués e comecei a correr mundo.

Não deixei em nenhuma das três escolas qualquer retrato. Nem tenho retrato; dos meus colegas, das minhas turmas - nenhum retrato.. Dos meninos que moraram na casa de Dona Antonia Corada: netos, afilhados, filhos de agregados, num ano éramos 14, mantemos amizade, trocamos informações. Dos 13 ainda vivos, a maioria mora em Brasilia, alguns em Goiás, eu em São Paulo e poucos em Gilbués. O ginásio fiz em Brasilia, o Técnico Industrial em S. Paulo.

O SAPOTI, O GIBI E O GURI



Spirito Santo

Seriam as lembranças da infância um caderno de matérias tatuadas em nossa mente, coloridas e nunca mais esquecidas ou seriam, por outro lado, um frio cárcere de memórias-cicatrizes, tão desprezíveis que, por mais que se tente, não se conseguirá apagar jamais?

O meu primeiro fragmento de lembrança deste tempo, pelo menos de início, até que é doce e bom:

Um sapoti caído do pé numa quente madrugada.

As frutas caíam no chão de terra do pátio do colégio interno, ainda úmido de orvalho. Eram o raro prêmio para os mais cedo despertos - e lépidos- primeiros a pular do beliche e correr para fora do alojamento.

Não sei quantas vezes fui o premiado. Do que sei bem é o que ficou em mim daquele amarelo sujo e manchado da casca do sapoti, em sua evocação de uma memória-delícia, sinônimo de vitória alcançada, marcada por uma única mácula: Os dentes do morcego que mordiscara a fruta, antes de mim, derrubando-a do pé.

A marca do morcego passou a ser o signo das lembranças mais amargas, de tudo que me lembro de ruim naquele tempo.

Do dia em que entrei no colégio interno pela primeira vez, por exemplo, não lembro quase nada. O morcego mordeu este pedaço. Existe um apagão irremediável nesta parte da história. Tenho deste dia apenas uma vaga e desagradável sensação de ansiedade, que logo virou terror, assim que regressei ao colégio, depois de ter ido, pela primeira vez, visitar a família em casa. Ânsias de vômito, náuseas. Esta é a parte mais doída das lembranças.

A primeira memória nítida que me vem, logo de saída, é a do ponto de bonde onde saltávamos, eu e Geny minha mãe, na Rua Conde de Bonfim, na Tijuca, bem em frente a um importante colégio de ricos e remediados da época: o Instituto Lafaiette.

O prédio do antigo instituto está lá, até hoje, demarcando a geografia de minhas lembranças da escola-prisão. Passo sempre pelo local, mas, não consigo encontrar nenhum vestígio do Colégio Vera Cruz (nome oficial da Escola-Prisão) que me parece, ficava mesmo ao lado deste imponente Instituto.

A primeira idéia, vaga ainda, do que seria uma escola, lugar onde se aprende coisas, foi até mais agradável ainda que o sapoti. O nome já dizia tudo: Jardim de Infância.

Havíamos mudado da casinha velha do bairro de Marechal Hermes que, simples e bela naquela sua arquitetura artesanal, pode ser rememorada pela foto que o soldado José Cyrillo tirou com a máquina Kodak caixote que trouxera da Itália.

O novo bairro foi Campo Grande, na antiga zona rural da capital federal. Foi lá o curto, porém intensamente bem vivido, tempo do Jardim de Infância.

Lembro do cheiro do pano do avental novinho em folha, com as minhas iniciais bordadas a ponto de cruz. Lembro de um chapeuzinho de palha com uma fita (azul ou vermelha?), xadrez, enlaçada no cocoruto. Lembro da folha de um livro de colorir com um pintinho impresso, ainda vazado e sem cor que eu, maravilhado, pintei com o lápis amarelo (soube, imediatamente, ali, no momento em que inseri as virtuais peninhas amarelas naquele pintinho que, de algum modo, ‘desenharia’ coisas pelo resto da vida).

Tomado de paixão pela caixa de lápis de cor, levei para a sala de aula, no dia seguinte, um postal que meu pai trouxera da Itália e copiei, pela primeira vez, algo que saindo dos meus olhos, fixava-se no papel, como mágica.

Incrível descoberta: Aprendi ali que a rabiscada proa, linda e imponente, de uma gôndola veneziana, poderia me dar o poder de contar para os outros, algo sobre a vida do principal herói da ‘minha’ guerra mundial pessoal.

Pena ter sido tão breve a minha estada naquele jardim de prematuras e indeléveis felicidades, minha derradeira escola convencional.

Logo, tudo escureceu quando em 1951, seqüelas do alcoolismo, proveniente talvez do que se chamava na época ‘neurose de guerra’, me levaram o pai e, de roldão, o meu mundinho de criança feliz.

.Criança feliz, feliz a cantar
Alegre a embalar, seu sonho infantil
Ó meu bom Jesus, que a todos conduz
Olhai as crianças do nosso Brasil...’


Não sei porque, nunca mais soube se foi um sonho ou uma miragem a lembrança que marca o começo de tudo na história da primeira escola, depois do Jardim de Infância. Datada, a lembrança que marca o momento preciso de minha ida para o colégio interno, a Escola-Prisão, ali por volta dos meus cinco anos de idade, é uma canção insistentemente repetida no rádio.

Desta imagem, fantástica, eu me lembro, como se fosse hoje: Estava gravada no céu azul que encobria o pátio do colégio e foi, certamente, criada em minha cabeça pela visão fortuita da página de jornal de algum inspetor e pelo rádio, que tocava aquela música que para mim ficou, para sempre, associada à uma idéia de tristeza e melancolia.

.Crianças com alegria
Qual um bando de andorinhas
Viram Jesus que dizia:
 Vinde a mim as criancinhas...’

Entre um flash e outro da trágica notícia, entremeada com a majestosa voz do falecido cantando, eu ia compreendendo que um tal de Francisco Alves, uma celebridade da época, autor e intérprete daquela canção, havia morrido num acidente automobilístico.

O ano marca por isto, certamente, o início da minha jornada de habitante daquele estranho mundo, engolfado que fui, pelo que soube ser bem mais tarde, uma unidade conveniada do sistema do SAM, Serviço de Assistência ao Menor, famigerada instituição criada no segundo governo de Getúlio Vargas para abrigar meninos pobres e órfãos, entre os quais os considerados infratores ou delinqüentes, eram encaminhados para a principal unidade do sistema: A Escola XV (cujo imponente prédio reformado, abriga hoje uma razoável escola pública, no bairro de Quintino, no Rio de Janeiro).

O fato é que, ingenuamente solidário, diante das dificuldades de minha mãe viúva, além de influenciado pela foto de uma freira cuidando de um feliz menino - vestindo um paletozinho tweed - no Anuário as Senhoras de 1951, ingressei, pois, em 1952 no Colégio que, logo pude perceber, era uma reles Escola-Prisão, sempre temeroso de, caso cometesse alguma falta – como vi alguns cometerem - ser transferido, para Escola XV, o Presídio-Escola de todos os meus pesadelos.

Esta era – como ainda hoje é, ou muito pior - a lógica crua do sistema de ‘assistência’ às crianças pobres do Brasil.

Fosse a minha infância um tenro sapoti, o SAM seria, com certeza, o mais infame dos morcegos.

O traço do Gibi

Não sei o que deu nela, na minha mãe, naquela ocasião. O que de bom teria ocorrido naquela época? Será que ganhou a milhar no jogo do bicho? O que mais poderia ocorrer na vida de uma modesta costureira suburbana? Talvez ela tivesse conseguido aquele seu primeiro emprego de costureira profissional, num ‘atelier’ de uma daquelas ‘mademoiselles’ com falso sobrenome francês que, motivadas pela abertura na cidade de elegantes magazines de roupas ‘prontas’, encheram de fabriquetas (confecções) o centro da cidade, criando uma enorme demanda por costureiras, bordadeiras, chuleadeiras, overloquistas, etc.

O que sei é que, na visita daquele dia ela não me levara apenas o modesto farnelzinho, com três ou quatro peras embrulhadas, delicadamente, num papel roxo e o saco da adorável rosquinha de coco marca ‘Seara’. Ela me apareceu desta vez, com uma enorme mala de papelão novinha em folha, forrada internamente, guarnecida com belas cantoneiras pintadas de marrom brilhante, cheia de tudo que ela imaginou que me extasiaria de felicidade.

E quem não se extasiaria com duas latas de elite condensado, muitos sacos de biscoitos sortidos, entre os quais os saborosos Seara’, peras - e também maçãs – embrulhadas no papel roxinho de sempre, e muitas outras iguarias mais?

E as muitas revistas de história em quadrinhos? E os livros que, apesar de amarelados de tanto terem sido usados, eu - já a esta altura, razoavelmente, alfabetizado - muito apreciava (principalmente, quando eram novelas policiais do Arsène Lupin ou romances condensados, como o inesquecível Robinson Crusoè do Daniel Defoe, livros que eu acho, ela garimpava em sebos do centro da cidade).

Caixa de Pandora que era, aquela mala, quando aberta, revelou-se um portal de mil e um encantamentos, glória absoluta para um menino que necessitava, ardentemente, de uma saída qualquer para um mundo fantástico, um portal através do qual ele pudesse escapar daquela vidinha sórdida e humilhante de órfão na Escola-Prisão.

Foi como se um mundo inteiro de cores e delícias, encaixotadas naquela mala, explodisse, igualzinho como explode um feliz boneco-palhaço de mola, nos levando do susto à gargalhada, pulando da caixa presenteada, exatamente, para nos fazer sorrir alguma felicidade fortuita.

Finda a visita, levei correndo a mala para o pátio. Onde a guardaria? Não tínhamos ali armários ou qualquer coisa parecida com privacidade, além do colchão imundo e da colcha encardida de nosso beliche.

Andei com aquela mala para baixo e para cima, pelo pátio durante todo o dia, sentando nela entre uma e outra brincadeira. Dormi com ela, transformando-a num duro travesseiro que não atrapalhou, nem um pouco, os meus irrefreáveis bons sonhos de menino rico por um dia.

Foi logo que acordei que decidi guardar a mala naquele vão meio escondido de um corredor do pátio. Naquela minha estúpida inocência de guri, aquele me pareceu um covil bastante seguro.

Gelei quando ouvi a gritaria vindo exatamente do vão do corredor. Corri para a turba que, ao me ver debandou completamente. No chão, a mala saqueada, em frangalhos. Não chorei. Num colégio interno, mesmo tendo apenas oito anos de idade, um homem não chora.

Minha mãe, a partir dali me trouxe muitas e muitas outras revistas e livros. O Trauma da mala no entanto, ainda hoje me acompanha, tremo e tenho sensações de perda irreparável, só de lembrar daquela algazarra ensandecida dos saqueadores.

Os meus sonhos de voar devem ter começado também ali, naquela época da mala. Eram sonhos muito reais. Difícil aceitar que não eram a mais pura realidade.

Dava um pulo para o alto e levitava um pouco, ainda de pé. Dava outro salto e conseguia me manter flutuando no ar. Subia, alcançava as nuvens e ficava por lá, passeando pelo céu, sentindo o frio gostoso da brisa úmida que transpassava as nuvens. Como continuei a tê-los, por muito tempo, sei que eram claros sonhos-desejo de fuga, sonhos de liberdade.

Assisti a várias fugas reais, mas, nunca tive coragem para fugir. Quando olhava o muro alto tremia de medo e me contentava em ficar imaginando o fugitivo feliz, com a adrenalina a mil, olhando para trás, até o bonde sumir numa esquina. O barulho das rodas do bonde martelando os trilhos ficou sendo para mim, para sempre, o som exato, trilha sonora perfeita daqueles sonhos...quase filmes, sobre Liberdade.

(Memórias e sonhos são mesmo como cinema, alguém já disse)

Assim, como uma lembrança puxa uma outra e, a propósito, me lembrei também do cineminha do colégio, que acontecia, de vez em quando. Os sinais de que haveria filme naqueles dias eram claros: Freiras, peças raras por ali, atravessavam o pátio de tardezinha, rumo ao galpão onde um inspetor montaria mais tarde um velho projetor Hewlet Packard 16mm.

E nós ali, com os olhos brilhando como estrelas ou pupilas de gatos na noite.


A roupa do Guri

Era uma roda com todos os meninos nela, eletrizados com algo que olhavam no chão do pátio.

Me enfiando entre os mais pequenininhos que eu, fui vislumbrando a imagem impressionante de um cawboy rabiscado no chão, com dois enormes revólveres apontados para a assistência muda.

O ‘rabisco’, vestido com botas de cano longo, lenço no pescoço, cinturão de fivela, fumava, displicentemente um cigarro, do qual esvaía uma fumaça mágica, porque nada mais era que um risco na terra seca. Não só a fumaça, tudo havia sido riscado com um imundo e reles palitinho de fósforo, que o orgulhoso e emocionado artista achara por ali mesmo, no chão.

Talvez, não me lembro, tenha me vindo à cabeça nesta hora, a imagem do pintinho do jardim de Infância. O certo é que senti, ali, de novo, o inexplicável prazer, inoculado que fui pelo vício da descoberta, de que se pode sim, contar coisas para os outros, conversar com as pessoas por meio de simples imagens, signos, rabiscos, estas coisas.

Se podia escrever tudo que quiséssemos, sobre o mundo, sobre a vida, apenas com rabiscos, foi o que aprendi naquele pátio feito escola. Grande milagre da vida.

Não sei por quanto tempo o tal menino artista ficou no colégio. Me lembro, contudo, de ter visto muitos outros desenhos dele expostos no chão do pátio. Me lembro, aí sim, bem mais claramente que, pouco tempo depois, chegou a hora de desenhar, eu mesmo, a minha própria obra prima admirável:

Um galeão, copiado de uma imagem do gibi do Fantasma-que-anda, foi o que fiz. Exatamente o galeão da primeira história da série, na qual o primeiro Fantasma, chegava na praia próxima à selva de Bengala, quase morto, depois de ter escapado de um navio de sórdidos piratas, que era visto na gravura, ainda ancorado ao largo.

E lá estava eu, me sentindo o rei de todos os mares da imaginação, olhando não menos emocionado que o meu inspirador, o meu próprio rabisco sendo admirado pela intrigada garotada.

O mais belo e incrível de tudo é que, os desenhos que fazíamos, eu e meu inspirado antecessor (como numa disputa sadia de artistas plásticos emergentes), ficavam intactos no pátio por dias e dias, sem um pisadinha sequer.

O turbilhão e correrias e brincadeiras que fazíamos (entre as quais o violento jogo da Carniça predominava) ocorriam ao largo dos desenhos que iam se apagando e esmaecendo apenas com o tempo, lentamente, soprados por alguma leve brisa de fim de tarde ou alguma garoa.

Era como se o pátio fosse o sagrado museu a céu aberto da nossa emocionada - e quase inacreditável - iconografia infantil.


O ansiado dia de visitar a família em casa (sempre num sábado do mês), era um tormento sem tamanho porque, nunca sabíamos que hora a inspetora gritaria o nosso nome, com um embrulho de papel com a nossa roupa ‘civil’ na mão, Ficávamos amontoados em frente ao portão entreaberto, tentando ver se alguém da família aparecia na fresta. É que tínhamos medo, pânico mesmo de, num dia destes acontecer de ninguém da família aparecer.

A roupa ‘de sair’, quando voltávamos no fim do Domingo, era deixada na portaria e levada com a nossa mãe para casa. O pacote de roupa ‘da rua’ era muito ansiado também porque não tínhamos nenhuma roupa sobressalente para usar no colégio.

O macacão de brim azul, ficava imundo em poucos dias de uso. Não teríamos outro por meses a fio. O melhor era cuidar para que ele não ficasse muito puído e rasgasse no joelho (coisa quase impossível de não acontecer). Dormíamos e acordávamos com aquele macacão surrado, nojento, que só tirávamos para tomar banho.

Éramos organizados em bandos de quatro a cinco meninos. Tínhamos, como os presidiários adultos, números por meio dos quais éramos identificados no colégio, até que um apelido mais específico nos fosse aplicado. A eleição de um líder se dava por meio de disputas físicas ou mesmo por intermédio de ações aceitas como demonstração de heroísmo explícito.

O líder de meu grupo era o ‘Leiteiro’ (por ser cor de leite, um dos raros brancos da Escola-Prisão) que foi alçado a função depois de ter prometido (e cumprido) engulir mais de dez botões de roupa no espaço de um mês. Assumiu a chefia de nosso ‘bando’ assim que retornou da enfermaria depois de comer 32 botões.

Tínhamos, cada um, a nossa escova de dentes que era, cuidadosamente afiada em alguma superfície cimentada, para fazer as vezes de arma, de estoque.

Assisti a diversos embates no pátio. Cercávamos os dois brigões numa roda compacta e incitávamos, um contra o outro, doidos para ver o sangue correr. As brigas eram à socos, pontapés e estrangulamentos, violência pura e franca como a de animais em disputa por território ou comida. Quando um dos dois era atingido gravemente pelo outro, com um golpe mais certeiro e sangrava (geralmente no nariz), gritávamos, ensandecidos, a senha que declarava a luta por encerrada, com a consagração do vencedor:

_’Tirou melado! Tirou melado!’

Outra imagem bem vívida destes primeiros anos, era a da garotada formada no pátio, ao cair da tarde, ao lado do alojamento onde dormíamos. A formatura era rígida e marcial, com gritos de ordem unida que hoje soariam ridículos quando consideramos que nós, os internos, não passávamos de uma medíocre tropa de menininhos magricelas, com idade entre os cinco e os quinze anos. Contudo, cumpríamos as ordens, mesmo detestando, nos sentindo compulsórios soldados reais.

_ Pelotão...Sentido!
_ Cobrir!
_Descansar!
-Ordinário...Marche!

Para mim, pensando bem, até que a formatura não era assim tão ridícula porque, logo depois da ordem unida, o clima ficava diferente, agradável mesmo, por causa das músicas que cantávamos.

O repertório era, a princípio, aquele, formalmente, utilizado em todas as escolas da época, hinos cívicos tradicionais, ‘qual-cisne-branco-que-em-noite-de-lua,‘já-podeis-da-pátria-filhos-ver-contentes-a-mãe-gentil’. Mas, o prazer maior chegava na hora em que, entre contritos e embevecidos, entoávamos aquelas dolentes canções ‘indígenas’ de Heitor Villa Lobos. Dormíamos bem, como anjos, nos dias em que cantávamos Villa Lobos, naquela semi escuridão do pátio ao anoitecer.

Ninguém nunca nos perguntou porque ficávamos tão emocionados, principalmente, com aquela canção, da qual eu me lembro bem até hoje, que falava de um tal de Anhangá que fugiu:


Não que tenha esquecido, mas, pouco me lembro de professores. Pelo que recordo, praticamente não os tínhamos. Me recordo vagamente das aulas em que fui alfabetizado, do cheiro de massa de modelar levada, uma única vez, por uma diligente professora e só.

Nossa referência ‘educacional’ eram os chamados ‘inspetores’, figuras musculosas, com as camisas de mangas curtas arregaçadas, para mostrar a nós, esquálidos meninos, a ameaçadora desproporção entre seus bíceps e nossos bracinhos finos como gravetos.

Os inspetores homens (haviam entre eles algumas poucas mulheres, as “Tias’) eram, pelo aspecto, jovens policiais, praticantes de luta livre e Jiu Jutsi. Lembro de dois deles. Um que usava uma vareta dura de madeira (como uma batuta de maestro) com a qual fustigava as costas e as pernas dos meninos ‘indisciplinados’ e outro que, ironicamente, usava uma grande régua de madeira, com a qual gostava de acertar o interstício das orelhas dos rebeldes incorrigíveis. Verdadeiros ‘desensinadores’ que eram, usavam a régua com truculência ‘educativa’, como método pedagógico’ mesmo. Boçais como a sociedade que os criara. Que Deus os tenha.

É deles, dos carcereiros-inspetores da Escola-Prisão, a penúltima imagem que me ficou na memória, não por acaso, a mais constrangedora:

Numa formatura silenciosa, sem jantar, sem ordem unida, sem música de Villa Lobos, sem hinos cívicos, sem nada, ficamos perfilados noite adentro, por cerca de quatro horas, com os braços direitos estendidos, com as mãos espalmadas, pousadas no ombro do colega da frente. Aqueles que, não resistindo à dor, deixavam o braço pender para baixo, recebiam golpes da vara que os inspetores ainda neste tempo, portavam como instrumento de poder e coação.

A intenção deles com a tortura coletiva era clara: Alguém teria que denunciar quem entre nós, havia feito uma das denúncias que haviam vazado para fora do colégio, engrossando o que hoje imagino ter sido uma grave crise no sistema SAM (ou no órgão que o sucedera) que, ali por volta de 1959/60, parecia prestes a ruir com novas denúncias sobre bárbaras torturas na Escola XV e numa unidade de São Paulo.

Dos motivos sabíamos alguns poucos detalhes. Havíamos sido, rapidamente, transferidos da Tijuca para um bairro distante do centro (se não me engano, Jacarepaguá). A comida, de resto sempre ruim, estava agora intragável. Dias antes, alguns meninos haviam baixado enfermaria, depois de ingerirem carne estragada. As mães, alarmadas pelas notícias que, ao que parece, já haviam saído na imprensa, passaram a deixar algumas moedas conosco, com as quais comprávamos algo para enganar a fome, bolos, balas, laranjas, através do portão principal, ao qual, tínhamos algum acesso.

Na visita seguinte, faminto como todos os outros, decidi confessar a minha mãe que não dava mais para ficar ali.

É esta decisão que deflagra então a nossa última memória que, como se fosse uma volta simbólica ao Jardim de Infância, é a minha lembrança mais querida:

O bonde, a cortininha de lona levantada, o trajeto arborizado por entre as ruas da Tijuca. A música bem ritmada dos trechos de trilhos percorridos, exatamente, a mesma música da fuga dos outros.

Música dura e com faíscas eletrizantes. O ferro da roda do bonde atritando o ferro de memórias que, agora que foram contadas, explodidas para fora da mala, caixa de Pandora aberta que era, não podem mais ser apagadas por ninguém.

Minha honra e meu mérito escolares foram, portanto, muito mais do que ter permanecido lá, ter ali compreendido que a rota de fuga para a liberdade, era a única matéria que realmente merecia ser aprendida.

Escapar íntegro da Escola-Prisão e ter espantado os morcegos da minha vida, entre todos, é o meu único diploma válido, exposto com orgulho na lousa destas minhas remotas memórias, para sempre felizes por serem, eternamente, infantis.

Ó manhã de sol! Anhangá fugiu!
Anhangá! Hê!Hê !
Ah! Ah! Foi você
quem me fez sonhar...’