quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

MEUS SETE ANOS: O PRIMEIRO ANO NA ESCOLA




Joana Eleutério

Pensar a respeito do assunto e tentar lembrar um episódio marcante, pitoresco, histórico ou divertido tornou-se um exercício interessante.

Na simplicidade de uma enorme família do interior de Minas, vivendo na zona rural, nossa vida tinha poucas novidades, não tinha grandes alegrias e nem muitas tristezas. Com pais extremamente comportados e enquadrados, nós éramos crianças que “entravam mudas e saiam caladas” em quase todos os ambientes. Tínhamos poucos direitos e muitos deveres.

Assim tão educadinhos, e sabendo “de cor e salteado” o lema dos pais e dos educadores daquela época,– final da década de 50 – “criança não tem querer”, meus pais nunca receberam reclamações de professores ou de escolas e nem de vizinhos.

Décima filha, com seis irmãos mais novos e nove mais velhos, eu escapei pela tangente. Criei um mundo de sonhos e fantasias que me davam direito a ter amigos secretos e tão pequenos que cabiam na palma de minha mão. Eles viviam debaixo da terra e nos cupins. Construíam verdadeiras cidades subterrâneas. Eu podia brincar com seus minúsculos carrinhos e eles me contavam tudo sobre a sua vida debaixo da terra. Pena que eu não podia entrar lá, só eles saiam pra brincar comigo. E, a qualquer barulho se escondiam novamente... Só eu podia vê-los.

Menina muito sonhadora, eu brincava, sozinha, horas a fio. Só quando meus irmãos e primos iam nadar no açude, eu me juntava a eles e me esbaldava. Este temperamento até deixava os adultos preocupados, principalmente minha mãe. Até começar a estudar na cidade, em Bom Despacho, eu era considerada pouco inteligente e muito desatenta. “Esta menina vai ter dificuldades para aprender, diziam!” Minha cidade fica a 160 kim de Beagá, pela BR 262 sentido Uberaba.

Na escola da cidade, o que mais me surpreendeu foi o seu tamanho: muitas salas, dois andares, pátios e uma quadra. Tinha ainda uma enorme cantina, onde sempre eram servidos mingaus e outras merendas gostosas. O Grupo Escolar Coronel Praxedes, o mais antigo e tradicional da cidade ocupava um quarteirão quase inteiro, pertinho da Praça da Matriz e também da Praça da Estação. Além dele, naquele ano de 1959, só havia outro – o Grupo Escolar Flávio Cançado, que funcionava no antigo seminário.
Meus coleguinhas eram crianças bonitas, cheirosas, bem vestidas e muito bem penteadas. Eram muito clarinhas, não tomavam tanto sol como a gente lá da roça. E falavam de um jeito tão diferente também. Eu achava tão bonito e ficava caladinha, só observando e ouvindo. A nossa professora era excelente e eu logo aprendi a escrever e a fazer contas. Minhas redações e desenhos faziam sucesso. A professora sempre escolhia as melhores redações e lia alto para toda a turma – eu ficava feliz escutando o que eu tinha inventado na voz de D. Célia Resende. Eu me sentia uma verdadeira escritora. Tão feliz como quando declamava a Canção dos Tamanquinhos...

O que eu mais gostava era quando a professora contava estórias e depois os alunos faziam teatrinho. Eu sempre ficava na platéia, quase sem respirar, de tão bonito que eu achava. A estória da D. baratinha se tornou inesquecível. A Bete, aluna nota dez em tudo, não tinha vergonha de nada e quase sempre fazia o papel principal. Ela fez muito bem o personagem da Baratinha. Hoje ela é médica, mas continua sendo a “Bete Barata”, apelido que ganhou naquele dia, até mesmo como uma homenagem por sua excelente performance.

Eu a admirava muito. Mas, uma vez, não me lembro o motivo, nos estranhamos na saída da escola. Com toda turma e os alunos de outras turmas que também estavam saindo e fazendo uma torcida danada, eu fiquei valente. Segurei-a no canto do muro e fui apertando, apertando e sendo ovacionada pela molecada, até pelos meninos da quarta série. Hoje eu penso: Eh, Bete Barata, a nossa salvação foi a vice-diretora. Se ela não aparece!!... Ela salvou você e me tirou daquele papel ridículo de valentona, que eu estava representando.

No dia seguinte, estávamos conversando de novo e nem nos lembrávamos da traquinagem da véspera. E eu me pergunto até hoje de onde surgiu aquela briguinha tão boba!

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