quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

RETRATO D'UMA ESCOLA SEM RETRATO



 André Pêssego

Por comodidade de minha mãe fui para a escola aos 6 anos. Aprendi a ler (sem soletrar), também antes dos 7. Escola "aberta" na minha casa. A casa de farinha enorme, foi partida no meio para abrigar a escola, 1954/55.

Gilbués fica no extremo sul do Piauí, no centro da trempe de ligação entre os estados do Maranhão, Bahia e o hoje Tocantins. E pode-se dizer dele mesmo, já que dista 980 km de Terezina. Região historicamente agro-pastoril, mais pastoril que agrícola.Um dos sinais acentuados de matriarcado do Brasil - característica necessária da zona agro-pastoril, de criação extensiva.

Mestre Benício, garimpeiro negro, letrado - dos liames das doutrinas religiosas às do direito, bamba das culturas populares, naquele ano propos à minha mãe, a "abertura" da escola.

Minha casa ficava numa boa eqüidistância das casas dos demais parentes e próximo da currutela dos garimpeiros, atendendo, com vantagem aos dois núcleos. Minha mãe não titubeou. Ficou radiante! E já aviou as mudanças.

Não tinha formalidade alguma para a matrícula. Nem documento nem retrato. De pai e mãe analfabetos, como de resto os familiaes, salvo um tio que escrevia e lia as cartas, fui para a escola:

- "Tão miudinho!" Diziam as tias, com pena, mas sem reprovação.
 - "Que mal tem!?", justificava-se minha mãe, sempre com a razão.
 Na escola de Mestre Benício os pais exigiram o instrumento pedagógico PALMATÓRIA, contrariando ao "africano".

Me desarnei rápido, para satisfação de meu pai e martírio próprio: tinha de ler sempre para os visitantes ou parentes ora as cartilhas; ora os livretos de cordel.

Afilhado de Dona Maria Corado, e graças às considerações entre os compadres, Dona Antonio Corado, (a mãe), viúva do Cel. Fausto Lustosa, ofereceu residência e estadia para eu ir estudar em Gilbués, escola oficial, convênio igreja/estado
Morar com aquela familia, nobre, de costumes e ritos totalmente diferentes da minha vivência quase de indígena, foi terrível. De tão assustador, hoje não me recordo dos primeiros dias. Mas foram torturosos: como se estivesse engolindo a própria língua. De menos angustiante contava somente com o momento do sono.

Como estava esquartejada a sociedade em Gilbués estava mais ou menos a vida dos meninos das escolas.

A) - aqueles mandados para outras cidades - escolas famosas: ou de padres ou dos protestantes, via de regra americanas. Retornavam a Gilbués ocasionalmente, férias ou festividades - "se tornavam" importantes, poderosos, bonitos.

B) - dos que estudavam em Gilbués

B.1) - aqueles que os pais moravam na cidade. Super protegidos, importantes, uns até bonitos, também; B.2 - os que moravam nas roças, - os "forasteiros" - esprimidos, desprotegidos, sentiam-se sem importância alguma. Eu estava neste último grupo.

Eu, se para os olhos dos adultos e das professoras tinha um mérito - já entrei alfabetizado. Já sabia tabuada "na ponta da língua"-; para com os demais meninos: débito enorme, impagável.

Era de tal ordem a rixa que eu evitava de dar resposta certa, do que sabia. Não me convinha - ficava mal visto, não ia ter com quem vadiar. O recurso mais usual era fingir que não sabia. mesmo correndo o risco de pegar algum castigo, os usuais (copiar tantas vezes, não sair pro recreio, etc).

Um ano depois, acho que pelo crédito das leituras, fui para o colégio dos padres - Colégio Divina Pastora - "bolsista" não sei de quem.
 - Minha mãe, impassível, "tá lá pra estudar mesmo", dizia - não se movia por qualquer coisa - hoje a vejo assim.

 - Meu pai saiu contando para todos os parentes e conhecidos. Felicidade enorme. Acho que foi a maior satisfação que lhe dei, (se não a única), - que sinto que lhe dei.

Anos depois, acho que 1958, as moças, professoras (filhas de Gilbués) foram substituídas por moças de Terezina, Floriano, Salvador, formadas de anel no dedo e diploma na parede, emoldurado. Exigência da Ordem Católica, de origem espanhola, não sei qual. Nova divisão social.

 A) - As moças da cidade não faziam amizade com as forasteiras, os rapazes não as namoravam por "medo de rixa entre as famílias", já que aquele "não pode", soou-lhes como uma desmoralização;

 B) - as professoras (novas) foram para o rol dos "desimportantes", dos forasteiros.

O "alto", na frente da igreja, nas noites de calor, e lua clara, (dificil não ter calor), era o lugar onde reuniam moças e rapazes. Lá estavam elas - isoladas. Quase sempre nos chamavam a todos, via de regra só os meninos "forasteiros" se chegavam.

Enquanto na casa de meus pais o tormento eram as leituras dos livretos de cordel, na casa de Dona Antonia Corado o "suplício" era a sala de leitura - todas as noites, rigorosamene todas. Depois do jantar, e antes de dormir. Dona Maria Corado recostada numa preguiçosa, vigilante, lendo as revistas "O Cruzeiro" que lá chegava com meses de atraso

Um dia achei, li a biografia do Marechal Lott, minha madrinha, sempre tão distante, passou a mão na minha cabeça, fiquei feliz: Ela gostara, aprovara. Ficamos íntimos daí por diante, até sua morte, em 1983, nos sentimos assim, tenho certeza. (4)

Aprendi e me acostumei a encontrar nas professoras o amparo, a amizade, a companhia, a proximidade, a intimidade. Assim Professora para mim, no meu imaginário não é adjetivo, não é pronome. Não, Professora para mim é nome próprio.

Fui para o exame de admissão ao ginásio. Já tinha deixado de ajudar nas missas, nos casamentos.

- "A túnica do Rei do Congo feita de diamantes", contava Vó Ursa com detalhes, como furavam o composto mais duro da terra.

 - "Reino do Congo não existiu, miragem", re-ensinavam os padres, nas aulas de História ou nas pregações das Santas Missões. Me insurgia, sem conhecimento, só por amor a Vó Ursa, por gostar de Mestre Benício. Fui "ficando antipático", sabia eu mesmo.

Uma soma de tres fatores me impediram de entrar no ginásio: - falta de recursos financeiros, éramos cinco irmãos; - perda da simpatia para com o Diretor, o baiano Pe. Paulo; -a doença de Dona Antonia Corado. Não convinha continuar; não podia bancar o ginásio. Deixei Gilbués e comecei a correr mundo.

Não deixei em nenhuma das três escolas qualquer retrato. Nem tenho retrato; dos meus colegas, das minhas turmas - nenhum retrato.. Dos meninos que moraram na casa de Dona Antonia Corada: netos, afilhados, filhos de agregados, num ano éramos 14, mantemos amizade, trocamos informações. Dos 13 ainda vivos, a maioria mora em Brasilia, alguns em Goiás, eu em São Paulo e poucos em Gilbués. O ginásio fiz em Brasilia, o Técnico Industrial em S. Paulo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário