terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A MINHA LEITURA DE "ERA UMA VEZ UM JARDIM"





 Joca Oeiras

Mesmo correndo o risco de deixar transparecer meu, não desprezivel, lado cabotino, devido à insistência que me acorrem imagens do texto "Era uma vez um jardim da infância", de autoria da Leticia Möller, resolvi tentar, quase num exercício de exorcismo, acertar contas com aquele delicioso texto através da publicação das reflexões que fui fazendo desde o momento em que o li , pela primeira vez.

Um Conto de Fadas

Desde o "Era uma vez"do título, a jovem escritora nos declara que optou por encarar as suas lembranças como se tivesse vivido um conto de fadas.

E prossegue: "Jardim de Infância, pequeno espaço de fantasia e aprendizado, mundinho feliz todo à parte. É o Jardim da escola onde sempre estudei a concentrar a maior parte de minhas lembranças escolares felizes. Três doces, belos anos em meio às tias, aos brinquedos do pátio e da salinha, ao coelho, às galinhas, à horta onde plantávamos e que nos permitia, cheios de orgulho, levar para o almoço de casa alfaces e rabanetes."

Junta-se, portanto, à idéia do conto de fadas, o cenário prefeito para que ele se realize: o jardim da infância mais tradicional de um dos mais tradicionais colégios de Porto Alegre adrede preparado para isto mesmo: encantar os pimpolhos.

Acho perfeitamente natural, nestas circunstâncias, que a Letícia, ao fixar a memória neste seu passado, nem tão distante, mas, seja como for, o seu passado o enxergue desta forma idilizada. Natural, eu diria, mesmo para os olhos de quem procura enxergar a verdade.

E a descrição que faz é decorrencia disto, desta conformidade com as lembraças que "vê" e nos transmite com riqueza de detalhes, com direito a toalinhas bordadas e brinquedos descritos à minúcia.

Se parasse por aí, ninguém poderia recriminá-la: todos os elementos que ela mobiliza para a contar sua história são de uma autenticidade plena. Acontece, no entanto, que a Letícia, não apenas escreve bem; é uma artísta! Alguém que, a tudo, e apesar de si mesma, precisa dedicar um segundo olhar para além das aparências.

Doces anos de Jardim, é verdade, mas que tanta doçura não engane. Para uma menina tímida, sonhadora e um pouco medrosa como eu era, o Jardim podia revelar-se um território quase “hostil”.

Até hoje eu me lembro, como se tivesse sido agora, da primeira vez em que li este parágrafo pois não consigo lê-lo sem reviver a emoção que senti naquele dia.

É que, depois de olhar para o magnífico prédio, as instalações, os coelinhos e outros bichinhos, a horta, as professoras tão dedicadas, os brinquedos, a preparação para as festas, o entusiamo das mães arrumando as filhas, todo este inegável encantamento, de repente, não mais que de repente, a nossa heroina, num ato de pura regressão psicanalitica, olhou para dentro da Leticia (então com quatro ou cinco anos) e viu que, na verdade, existia um fosso, um estranhamento entre a Leticia real e o conto de fadas criado para ela.

Este é o momento do texto que mais me encantou, a delicadeza com que ela é capaz de descrever esta grande, embora um pouco dolorosa, descoberta: "Que tanta doçura não engane!"

Integridade: esta é, para mim, a palavra que melhor define o texto da Letícia. Transpira integridade do primeiro ao último parágrafo e que foi resumido, magistralmente, por ela "–Desejos de pintá-lo todo cor-de-rosa, passar a borracha em qualquer outra cor." Entre a vontade e a verdade, Leticia não teve escolha.

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