quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O RESUMO DA ÓPERA



Joana Eleutério

Recontando a história...

Meus pais eram primos de primeiro grau ou primos-irmãos, melhor dizendo. Isto, no entanto, é só para explicar a origem da loucura...

Dezesseis irmãos – onze mulheres e cinco homens. Muito dinâmica, minha mãe cuidava da casa, costurava e, às vezes, ainda dava aulas para as crianças da região. Era também uma espécie de médica de toda vizinhança. Tinha uma caixinha de madeira com medicamentos homeopáticos, que vinham do Rio de Janeiro e um grosso livro da Almeida Prado para se orientar. Multiplicadora do tempo, ainda nos ensinava a moldar, com argila, diversos objetos para brincar e, quase todas as noites, nos contava histórias e estórias ao pé do fogão de lenha. Eventualmente pelas manhãs, ela ainda nos levava para nadar no açude e tomar o sol das manhãs. Tivemos, portanto, uma infância bonita, com brincadeiras de roda, passeios a cavalo nos fins de semana para visitar os tios e primos que moravam nas redondezas.

O meu Curso Primário foi iniciado em uma escola rural. Aos seis anos, aluna da D. Lourdes Eleutério Azevedo, também minha tia, fui com meus irmãos, para uma escola que funcionava em uma sala cedida por um tio (meu querido tio Joãozinho). Usávamos enormes carteiras, em que cabiam cinco, seis crianças. Em uma só classe, se colocava aproximadamente vinte alunos de diferentes idades (as famosas turmas agrupadas, que existem ainda hoje na zona rural). Fazíamos muitos exercícios para treino motor, mas nem comecei a ser alfabetizada. A prefeitura da cidade de Araújos, em Minas Gerais, pagava a professora, fornecia giz e um quadro negro, “que não era verde”.

Aos sete anos meus pais alugaram uma casinha em Bom Despacho, a 160 km de Belo Horizonte, para que eu e meus irmãos pudéssemos estudar na cidade. Tiza, uma das irmãs, tinha apenas 16 anos e cuidava da turma toda. Os mais novos ficaram na roça com meus pais, e os mais velhos espalhados por colégios de freiras, onde tinham bolsa de estudos, ou em casas de tios, meio como domésticas e babás dos priminhos pequenos.

Meu primeiro dia na Escola Estadual Coronel Praxedes, apenas alguns dias antes do início das aulas, foi para fazer um teste para classificar os alunos conforme a inteligência. Fiquei totalmente impressionada com o tamanho do prédio da escola. Os alunos eram divididos em classe homogêneas, critério comum na época. Binet deve ficar revoltado com o uso completamente desvirtuado de seus testes. Num dos exercícios – que eu adorei e nunca me esqueci – eu tinha que ajudar o coelhinho a encontrar a horta cheia de alfaces. Com um bom desempenho, pude ficar na chamada primeira classe e a professora, Dona Célia Resende, era a melhor alfabetizadora da cidade. O Livro – A Cartilha de Lili era a coisa mais linda que eu já tinha visto. Foi usado em Minas Gerais desde a década de trinta até a década de sessenta. Recentemente, pude entender o seu papel doutrinador e machista e avaliar os seus efeitos em minha vida.

No segundo ano, a Professora era Dona Helena Batista – era uma boa professora. Muito séria, faltava-lhe, provavelmente, a amorosidade da antiga professora. O que me lembro claramente foi de sua estratégia para decorarmos a tabuada. A professora, nos minutos finais da aula, organizava uma competição em dois grupos. Dois alunos de cada vez iam ao quadro. Tive problemas porque da tabuada de seis acima, não quis mais decorar tudo (detesto decorar qualquer coisa!), então eu tentava usar outras estratégias. Por exemplo: eu invertia os números. Em 6x5, eu lembrava de 5x6, e depois dava o resultado. Perdi velocidade daí pra frente, quem decorava dava o resultado mais rapidamente.

Na terceira série, uma outra Dona Helena, agora Lopes Cançado. Era muito boa professora, talvez a melhor da cidade para esta série. Neste ano, nossa escola estava sendo reformada e tivemos aulas em local improvisado, cedido pela prefeitura e que ficava perto da cadeia. Isto nos dava um medo enorme dos “bandidos”, que muitas vezes, ficavam do lado de fora tomando sol. Nossa turma seguia junto desde a primeira série, mas nesse ano chegaram alguns alunos novos, acho que repetentes, não me lembro ao certo. O assunto que estudei e que mais me encantou foi a respeito das regiões do Brasil porque me fazia “viajar”, sem nunca ter ido mais longe do que Divinópolis, uma cidade vizinha e mais rica do que a nossa.

Na quarta série, como nossa turma era considerada muito brilhante, a escola quis investir mais no grupo, permitindo que a professora, de que tanto gostávamos seguisse conosco. Ficamos na mesma sala e com a mesma professora. Neste ano, minha avó – D. Maria Azevedo, como era conhecida - morreu de câncer. Éramos muitos netos dela na escola, fomos avisados e fomos todos para sua casa. Creio que isto aconteceu no mês de maio. No meio do ano, alguém fez um livro da História e da Geografia do município de Bom Despacho, nossa cidade. Como este era um dos conteúdos que devíamos estudar, todos os alunos da 4ª série tiveram de comprá-lo. Minha irmã, mais velha do que eu dois anos, estudava em outra sala. Minha mãe (meu pai não “apitava” quase nada) não tinha dinheiro e nos mudou de escola por causa disto. Fomos para a recém inaugurada e também estadual Escola Chiquinha Soares – a quarta série era um grupo diversificado de alunos transferidos das outras escolas. Alunos novatos como eu e alunos repetentes, já entrando na adolescência, ou até mesmo já adolescentes.

Na antiga escola, ainda no Coronel Praxedes, sempre às quartas-feiras, tínhamos um evento importante: as aulas de música com o Professor Magela, que vinha cantar conosco os hinos pátrios e, vez por outra, ensaiar alguma música sacra para alguma celebração, como o Dia das Mães. Na nova escola, sequer tínhamos aulas de música.

Sentia-me triste e saudosa, apesar da professora, Margarida Cardoso Eleutério, ser bem mais jovem e minha prima de 1º grau. Minha irmã e eu ficamos na mesma sala pela primeira vez. A sala era muito estreita e apertada, quase um corredor. E eu me lembrando sala do Coronel Praxedes, muito ampla e ventilada e no primeiro andar do prédio. Meio caçulinha da turma, eu era bastante paparicada, mas minha tristeza por ter deixado minha professora e meus colegas para trás nunca foi embora. A lembrança que tenho bastante nítida, deste final de curso primário, é que minha professora precisou faltar durante uma semana e foi substituída por Dona Luzia, a professora eventual. Mais velha e muito séria, nunca a vimos sorrir. Um dia, ela deu alguns problemas de matemática para resolvermos individualmente. Não podíamos conversar com os colegas. Como terminei rapidamente e comecei a fazer o que mais gostava em situações como esta – uma atividade, que se tornou quase profissional e fonte de renda pra família em minha adolescência – desenhar. Quando a professora passou por mim, começou com a maior bronca e foi pra frente falando alto pra todo mundo ouvir. Não me lembro direito, mas acho que até mostrou os desenhos para os meus colegas. Ela foi andando lá pra frente com o meu caderno na mão. Só depois que ela falou bastante descobriu que eu tinha feito tudo e certo. Calou-se e foi olhar outros cadernos e devolveu o meu.

Durante todo curso primário eu fui uma aluna bastante tímida e nunca ou quase nunca brincava no recreio. Gostava de bater papo com os colegas que também não gostavam de brincar, correr ou jogar. Não fui uma aluna muito participativa durante as aulas, pelo mesmo motivo. Mesmo quando sabia a resposta para dar a professora, eu não o fazia, a não ser que ela perguntasse diretamente a mim.

Dos 12 aos 14 anos, estudei em um colégio interno da Congregação das Filhas de Nossa Senhora do Sagrado Coração, em Divinópolis, Minas Gerais. Neste período, as freiras queriam me levar para o convento e foram muito atenciosas e extremamente carinhosas comigo. Inclusive, foi a Madre Paulina, a superiora da casa, quem me comprou o primeiro soutien. No entanto, eu já tinha meu namoradinho e elas nem desconfiavam. Foi um período curto, mas muito importante para mim. Nesta fase, comecei a superar a timidez, brincava e jogava no time de queimada. No internato, líamos muitos livros sobre a vida de santos. Santa Maria Goretti foi a mais explorada pelas freiras, que queriam dar aulas de Educação Sexual, mas não sabiam como abordar o assunto. Partiram desta triste figura para nos alertar a respeito dos perigos e sobre como devíamos nos cuidar, nos vestir para não provocar os homens, “que só querem aproveitar das mulheres”.

O que mais me encantou, neste período – eu não conhecia ainda – foram os gibis do Pato Donald, Tio Patinhas, Mickey, Pateta, Metralhas e Zé Carioca e foi o que mais li nesta época. A Turma da Mônica ainda não existia. Duas colegas – Víviam e Líliam – duas irmãzinhas que eram de Belo Horizonte e tinham um monte destas revistinhas sempre as emprestavam para mim. Boas coleguinhas, como gostaria de reencontrá-las!

Um outro fato muito marcante, neste período, foi o Golpe Militar de 1964, que eclodiu no final do recesso da Semana Santa, dando início a uma fase negra, muito conhecida de nossa história recente e a uma das ditaduras que caracterizaram esse período vergonhoso para toda a América Latina. Meus pais, por serem mal informados ou ingênuos mandaram-nos – a mim e a minha irmã – para o colégio e as freiras nos botaram de volta no primeiro ônibus. Não se sabia o que poderia acontecer e o estado de sítio havia sido decretado.
Os internatos já não estavam sendo bem vistos e estavam sendo fechados, como ocorreu em nossa escola. Voltei para minha terra e fui estudar no Colégio Militar. O que marcou o período foi meu primeiro contato com a Língua Inglesa e a lembrança de algum episódio importante no conflito entre Israel e vizinhanças, mais ou menos na época da Guerra dos Seis Dias. Como queríamos compreender melhor o que era aquela guerra, pedimos algumas explicações ao nosso professor de OSPB – Organização Social e Política Brasileira (a disciplina incluída no currículo pelos militares como instrumento de doutrinação, mas felizmente alguns professores conseguiam fazer um trabalho bem interessante e muito filosófico). Padre Vicente Rodrigues, nosso professor, mostrou-nos no mapa onde ficavam os países envolvidos e o porquê dos conflitos, aproveitando a oportunidade para falar também da Guerra do Vietnã (1965-1975), mostrando também no mapa aquele pequeno país. Engraçado, eu sequer me lembro quem era o nosso professor de história naquela época.

Já quase no final do curso ginasial – nomenclatura da época – fiquei algum um tempo em Belo Horizonte, tentando trabalhar e estudar. Fui aluna do Colégio Municipal do Bairro Salgado Filho. No entanto, voltei para Bom Despacho porque minha mãe ficava preocupada e sempre pedia que eu voltasse. Conclui a quarta série do ginásio no Colégio Estadual Industrial de Bom Despacho, que era dirigido pelo escritor e jornalista – o Professor Jacinto Guerra. No ano seguinte, fui para o Colégio Estadual Miguel Gontijo, o mais tradicional da cidade, onde fiz o 1º ano do Ensino Médio – Curso Normal ou Magistério.

Eu estudava na turma “mais adiantada” e a minha irmã na outra – segundo os critérios adotados naquela época. Gardner iria ficar arrepiado se lesse isto aqui. Os fatos mais marcantes: Padre Vicente, novamente dando aulas de OSPB. Agora ele dava aulas de pura filosofia e espiritualidade, nos apresentando Tomaz de Aquino, Santo Agostinho, dentre outros. Rosa Gontijo Azevedo, a professora de Didática, era também uma prima e excelente professora, que adorava alfabetizar e treinar alfabetizadoras. Foi ela que nos falou pela primeira vez de Florestan Fernandes e outras brilhantes cabeças da educação brasileira.

Porém, acabei retornando para Belo Horizonte porque eu precisava trabalhar para, pelo menos me manter. Fui para o Instituto de Educação de Minas Gerais, onde concluí esta fase – o Curso do Magistério. Trabalhava durante o dia, como caixa do mais antigo supermercado de Beagá e que hoje nem existe mais. E, portanto, estudava à noite. Nesse período, no inicio dos anos 70, a derrocada das escolas públicas já havia começado em conseqüência das políticas educacionais adotadas pelos militares e nem o curso nem os professores corresponderam às minhas expectativas. Mas, tenho boas lembranças de D. Terezinha Vasques, de Didática, e o professor Luís, de música, que era muito exigente, mas excelente professor. Concluí o magistério em 1972 – quando fiquei noiva.

Só voltei a estudar bem mais tarde. Já casada, com uma filha de quatro anos e esperando o segundo filho. Participei da seleção para a primeira turma do Curso de Estudos Adicionais para complementação do Magistério, com especialização em Educação Artística. Para minha surpresa, passei em primeiro lugar. Até que o curso começasse, eu já estava no sétimo mês de gravidez. Teve o recesso de final de ano, dei a luz no dia quatorze de dezembro e acabei não retornando no início do novo ano. Dois anos, em 1981, fiz a prova de seleção novamente e retornei em outra turma. Desta vez, concluí o curso, do qual gostei muito. D. Letícia, professora de Música e a professora de artes plásticas são as que meu coração escolheu para prestar uma homenagem nestas minhas lembranças.

Ano de 2007 - já avó e a minha vida de estudante ainda não terminou. Devo concluir Curso de Letras na UnB – Universidade de Brasília no meio do próximo ano. As lembranças já são muitas, cheias de peripécias e mudanças. E, claro, serão narradas no momento oportuno. Afinal, recontar a nossa história com amor é sempre iluminá-la.

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