quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

ENTRE O FRANCÊS E O LATIM

Seminário Menor São Vicente de Paula -Boletim Escolar

Nato Azevedo

"Na estrada empoeirada do Destino
duas almas tristonhas se encontraram.
Se olharam, se olharam... não falaram.

Apenas todas duas compreenderam
nos restos inúteis que ficaram
o que foram...
o que viveram
e o que sofreram..."
(in "Duas almas" -- Sônia Barreto)

Quase todos os que têm profissão hoje, um destino na vida, o escolheram a partir de vivência na escola, qualquer delas, mesmo universidade. Mas é geralmente nos estudos secundários que algo (ou alguém) ligado às atividades de sua Escola lhe aponta sua vocação ou caminho.

A não ser no caso dos "canários" e "bem-te-vis" da humanidade, que terminam com um microfone, mesmo quando portaram livros de engenharia ou medicina. Esses são casos perdidos... o adolescente comum vislumbra seu ideal de vida em dado momento da rotina discente, graças ao comportamento de professor que admira ou devido a livros & conversas nas quais se embasa.

Sou de um tempo, nos anos 50/60, em que os pais ou responsáveis decidiam seu destino, carimbando nosso futuro com um sonoro "é para seu bem". E, se não se argumentava com um parente de sangue como o pai (ou a mãe), quanto mais com a parentela distante como... como minha tia, por exemplo.

Vai daí, só fiquei sabendo que ía para um colégio de padres -- ou melhor, um Seminário -- quase na hora do embarque. (Isto sucedeu em fev./1965!) Felizmente lá nunca me perguntaram se eu queria me tornar um deles. A sorte do meu irmão gêmeo Renato foi até pior: a Escola de Agronomia, a dez quilômetros de distância, indo (e voltando) a pé 2 vezes por semana, com sol ou chuva.

Ser um escritor nunca esteve nos meus planos; por outro lado, jamais soube o que queria ser, além de fotógrafo, meu primeiro "hobby", fora colecionar selos. Via meu primo Joãozinho, "com um parafuso solto", rabiscando furiosamente horas a fio páginas às pencas, com textos que nem imagino do que tratavam. Passados vinte anos pedí à tia Anita que me enviasse algo dos escritos do filho... não restara nada, uma folha sequer.

Quando cheguei ao Seminário Menor São Vicente de Paula, em Araucária/PR, continuava "dançando conforme a música" que o Destino tocava. No meu caso sempre foi assim; aos 54 outonos permanece do mesmo jeito pois há sempre alguém mandando em mim. Agora, é o irmão gêmeo!*

Para os quase 150 jovens que continha, pululando por salas e corredores, o local era bastante silencioso e até nas partidas de futebol o comportamento geral era quase o de santos. O Pe. Mário era o "Zico" da época, craque completo e o gorducho Pe. Mozart -- por coincidência professor de música e canto coral -- imbatível no pingpong, mesmo contra 2.

Na verdade, são poucas as boas lembranças que levei do Seminário: as anedotas do Vitório e Marieta -- espécie de Fernandinho & Ofélia dos anos 40/50 -- transmitidas para o pátio (por alto-falantes) durante o recreio e as partidas de pingpong. Só isso?, indagarão os incrédulos

A leitura dos clássicos durante o almoço aliviava a tensão, exceto para o escalado. Sofri horrores na semana em que meu nome apareceu na lista mas, devido à quantidade de seminaristas, isto só acontecia uma vez por ano. Como sabia de antemão quais páginas do "Quo Vadis" me caberiam, pude me preparar a contento. Entretanto a "platéia" só tinha olhos para a comida.

As excursões também eram ótimos momentos de descontração e os fins de noite, sábados e domingos, coroavam a semana. Era quando todos se reuniam para ouvir a narração de aventuras feitas pelo Pe. Domingos, o Superior na época. Extraídas de clássicos da literatura universal as estórias embalavam nossos melhores sonhos e nos levavam a países distantes e lugares exóticos, graças ao realismo com que o inesquecível Pe. Domingos as contava.

Tímido e reservado por natureza, eu não vivia feliz no Seminário. Tive só um amigo no 1* ano ginasial e me fiz de "protetor" de um japonesinho no ano seguinte, sempre que ele usava sua camisa com "velcro", isso em 1966... o colégio inteiro punha-se a"rasgá-la" e eu defendia como podia o garoto de 9 (eu disse nove!) anos. Como os pais sabiam que alguém com dez anos tinha vocação para ser... padre ?

Eu não era feliz por vários motivos: desde o colégio anterior meu pai viva devendo mensalidades, levando o passivo "no bico", mas havia pequenas despesas o ano todo -- com fotos, revistas, doces, viagens, etc -- com as quais eu não colaborava, ao contrário dos demais. Devido a um ferimento crônico na canela (que só curou no calor tropical carioca) eu não podia jogar bola e nem nadar na imensa piscina que ajudei a construir. Ademais, aquilo sujava lençóis aos montes, que eu saía carregando pelo dormitório inteiro até a lavanderia, toda manhã.

Não sei até que ponto a vivência "eclesiástica" me inclinou para as Letras, mas eu invejava os 2 jovens da minha classe que escreviam as "Efemérides do Seminário Menor", espécie de crônica publicada mensalmente na revista dos clérigos (de Curitiba), a "Entre Amigos".

Minha vida mudou quando conheci, num "cursinho" no Rio de 1969, o português bem-falante (Antônio?) Pereira, amante dos livros -- que passou a emprestar-me -- e com quem debatia até a madrugada sobre poetas e poesias. Através dele conheci o "Jardim da Saudade", de Sônia Barreto, sua mãe, segundo ele. Jamais devolvi a obra que, emprestada aqui no Pará, também não me voltou às mãos. Já dizia o "provérbio"que "quem empresta, não presta!" Ele não sabe como (ainda) lamento!

Este belo livreto de 1955, da Editora A Noite, foi um marco divisor em minha vida. Felizmente copiei-o quase todo e trouxe comigo os rascunhos com poemas densos, brilhantes e sentimentais, pois pretendia repassar o volume ao seu dono. Algumas passagens ficaram gravadas na memória e serviriam de epitáfio numa lápide qualquer:

"De saudade se vive,/ de saudade se morre./ Eu não quero morrer de saudade./ Eu quero viver / esta saudade imensa / que sinto de você!"A partir deste "Jardim" mergulhei nas maravilhas da poesia, apaixonei-me por sonetos -- quando ninguém os tachava de coisa "demodèe" -- e acabei compositor, fazendo versos musicados às toneladas. Quanto ao Francês e ao Latim...ficaram para trás! Não havia franceses no Brasil para conversar e o latim o Papa "enterrou" logo em seguida... primeiro, nas missas e, depois, nos Seminários. "C'est la vie"!

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