terça-feira, 7 de dezembro de 2010

AVENTURAS DE DOIS COROINHAS NO COLÉGIO INTERNO

Padre Geraldo na missa

por Nivaldo Lemos


O filósofo romeno Mircea Eliade, no clássico O mito do eterno retorno, disse que “quanto mais religioso é o homem, mais real ele é”. Não sei porque, a frase me soa hoje adequada às lembranças que guardo do Padre Gerardo, a maioria delas menos afeita às coisas do espírito que à sua condição humana. Além do gosto excessivo por vinho, Padre Gerardo era também excelente artista. Pintor de mão cheia – lembrava Rubens nas cores e tons – e escultor, sua obra retratava quase sempre a natureza da ilha e temas religiosos. Morando sozinho em uma casa simples, ampla e confortável, o padre recorria ao trabalho voluntário de duas moradoras da ilha (mãe e filha) para ajudá-lo a organizar a vida doméstica, o que acabou alimentando boatos entre os alunos. Uns diziam que ele mantinha relações sexuais com mãe e filha. Outros, que era homossexual e alguns até insinuavam que ele seria um refugiado nazista. De certo mesmo, eu e meu irmão sabíamos apenas que era um ser humano – demasiadamente humano, diria Nietzsche –, bom amigo e nosso salvo-conduto não só para o céu, que à época acreditávamos merecer, como para as belas ilhas da região, onde o ajudávamos a celebrar missas.

A possibilidade de ser coroinha surgiu por acaso. A Igreja de Nossa Senhora das Dores, centro da vida religiosa na ilha, comunicava-se com o pátio interno da escola por uma porta que ficava sempre aberta, como se nos convidando a entrar. Evidentemente, poucos atendiam ao convite, a maioria preferia freqüentar a sala de jogos, a quadra de esportes ou apenas adormecer sob a fronde dos eucaliptos centenários que nos ofereciam sombra, perfume e um generoso colo de raízes onde curtíamos a sesta. Até que em setembro, mês da padroeira, descobrimos que todos os dias, após o jantar, teríamos que render graças compulsórias à Mater Dolorosa. Foi aí que – por destino ou graça da santa – resolvi ser coroinha, menos por vocação do que pela possibilidade de gozar o privilégio que a função concedia de viajar aos domingos para celebrar missa na região. Uma rara oportunidade de sair da ilha mesmo por algumas horas.

É claro que o exercício da função tinha um outro lado, aliás o principal: aprender a liturgia da missa, que incluía chegar à igreja antes de todos, nos paramentar e arrumar a mesa com os acessórios da missa. Na hora da cerimônia, entrávamos com o padre e nos ajoelhávamos em frente ao altar, nos persignando. Durante a missa ficávamos sentados em uma cadeira atentos aos gestos do padre. Ao começar a liturgia de consagração, pegávamos as pequenas jarras (galhetas) com água e vinho para servir ao padre. Neste momento, só de implicância, eu colocava no cálice mais água que vinho. O padre falava baixinho “mais vinho!, mais vinho” e se servia ele mesmo. Quando ele levantava a hóstia para a consagração, eu tocava uma sineta – era a hora da missa que eu mais gostava. Terminada a cerimônia, o Padre Gerardo nos servia biscoitos e suco.

Já no segundo mês como coroinhas, entramos na escala de viagens. Nossa primeira missa fora da escola foi na ilha de Jaguanum, perto de Itacuruçá. Saímos pelas 10 horas da manhã no Tintureiro e por volta das 11 horas chegamos. No trajeto, Padre Gerardo tomou bastante vinho. Na ilha não havia cais. O barco parou a alguns metros da praia e um pescador nos apanhou em uma pequena canoa. A igreja ficava do outro lado da ilha, onde se concentravam as poucas casas, e era tão pobre que o sino não tinha sequer badalo. Convocamos os fiéis batendo com um vergalhão na campânula oca. Após a missa, nos reunimos em um trapiche à beira-mar onde os moradores haviam organizado – como era praxe – um lauto almoço regado a suco, cerveja, cachaça e muito vinho de garrafão. Após o almoço, enquanto eu e meu irmão mergulhávamos de uma enorme pedra na água gelada, Padre Gerardo bebia vinho e conversava com os fiéis. De repente vimos uma correria. O padre havia ficado tão bêbado que borrara as calças, literalmente, sendo socorrido pelos pescadores que lhe deram um bom banho, uma calça limpa e uma rede para descansar. Ao fim do dia, com ele ainda meio zonzo, pegamos o barco de volta para a escola. Foi um domingo inesquecível.

Quando passei para o terceiro ano – entre os 13 e 14 anos – fui eleito líder das atividades socioculturais da escola (GT de Cultura) e resolvi abandonar a função de coroinha. A nova função, além de me parecer mais interessante, também oferecia privilégios como o de visitar a família a cada dois meses e manter a chave da biblioteca, onde passamos a nos refugiar da missa para rezar por cartilhas não tão virtuosas como o catecismo, mas sem dúvida mais atraentes. Todavia, antes de deixar de ser coroinha, participamos ainda de um último passeio que Padre Gerardo organizou: uma excursão ao Morro da Velha, o ponto mais alto da ilha, com 641 metros, onde havia uma cruz de madeira.

Saímos pela manhã num grupo de talvez 10 ou 12 alunos, acompanhados por monitores – o padre não foi por causa da idade. Subimos durante aproximadamente duas horas pela mata fechada e cheia de mosquitos. Enfrentávamos além do calor e dos mosquitos, o medo de uma lenda fantástica sobre um baú que teria sido escondido por um frade no alto do morro, à época dos escravos, e em cujo interior haveria – não se sabe porque – um caderno para assinaturas e uma caneta. Segundo a lenda, quem tentava chegar ao baú acabava se perdendo na mata. Coincidência ou não, após duas horas de caminhada morro acima, alguém gritou “olha a cobra!” – e foi uma correria só, cada um para um lado. Parte do grupo se perdeu na mata fechada e somente eu e mais quatro pessoas chegamos ao topo. Lá no alto, acabei saindo na porrada com um colega chamado Tesourinha, com quem tinha uma rixa antiga, mas fomos prontamente apartados pelos outros. Serenados os ânimos, entre mortos e feridos escapamos todos. Mas o passeio que deveria acabar ao meio-dia estendeu-se até o fim da tarde, quando o último aluno chegou à escola todo sujo e picado de mosquito. Terminei assim meu tempo de coroinha e – de quebra – ainda ajudei a reforçar a misteriosa lenda do baú.

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